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SOMOS A TONGA DA MIRONGA DO KABULETÊ

"Perdemos totalmente o controle, se é que algum dia tivemos algum. Falar em democracia, no poder que emana do povo, tornou-se uma balela quase cafona." Leia mais

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Artigo de HELDER CALDEIRA

 

O Tribunal Superior Eleitoral lançou uma importante e bem realizada campanha publicitária em favor da consciência do eleitor na hora de digitar seu voto nas urnas de outubro. Há um empenho em destacar a relevância do pleito e como ele irá influenciar a vida de cada brasileiro pelos próximos quatro anos. Perfeito e muito civilizado. No entanto, como bem disse o juiz Fausto Martin de Sanctis a propósito da inadequação de nossa legislação, “o Brasil não é um país civilizado”. E não somos mesmo. Basta observar tudo que nos cerca e como nos comportamos para diagnosticar todas as palavras inferiores que, de forma lastimável, são capazes de nos traduzir enquanto povo.


Como podemos considerar nosso voto como relevante com os candidatos apresentados? É tecnicamente impossível. O ser humano que destinar trinta minutos do seu dia para assistir ao horário político obrigatório na TV pode até imaginar que está diante de um programa de humor ou, quem sabe, um circo de horror. Cidadãos sem a menor intimidade com a palavra (quiçá com o vídeo), festejando sua distância apedeuto-lulística da língua portuguesa e tentando inspirar os eleitores com promessas não apenas vazias, mas que vão muito além de suas próprias e míseras compreensões. Um espetáculo para entristecer qualquer consciência.


Entretanto, não podemos reclamar. Perdemos totalmente o controle, se é que algum dia tivemos algum. Falar em democracia, no poder que emana do povo, tornou-se uma balela quase cafona. Somos hipócritas atrasados que, muitas vezes, elegemos nossos governantes com a mesma esperança que nos leva às filas de apostas em busca do sonho dourado de ganhar um prêmio acumulado de loteria ou nos faz tentar uma “fezinha” clandestina no bicho com qual sonhamos. E o sonho, camuflado ou não, é sempre melhorar as condições de vida ou, simplesmente, “fazer entrar um dinheirinho”. Nesse sentido, quando um candidato oferece R$ 50,00 pelo voto, o eleitor aceita. E aceita com razão, pois esse dinheiro pode comprar cinco quilos de arroz, três quilos de feijão, dez quilos de farinha, dois quilos de café e cinco quilos de açúcar. Tudo que o falta no dia-a-dia e que nos sobra em hipocrisia. Faça-se um giro em torno do próprio eixo e vamos encontrar uma série de exemplos de nossa disfarçatez.


Não compramos um único disco ou CD de Waldick Soreano há décadas e nenhuma gravadora se dispõe a gravá-lo. Bastou a atriz, produtora e diretora Patrícia Pillar realizar um documentário sobre a história do cantor para a “unanimidade” declarar-se fã e consagrá-lo como ídolo absoluto, “rei da dor-de-cotovelo” e toda sorte de elogios à sua inanimada carreira. Agora que Waldick morreu, alguma gravadora oportunista irá organizar um CD com sua obra, que venderá algumas milhares de cópias sob o mesmo “fogo-de-palha” que, hoje, acende e apaga mulheres plantas e frutas e suas siliconadas e expostas intimidades.


Não valorizamos os pouquíssimos programas de qualidade de nossa ridícula TV aberta. Enquanto Leda Nagle sua a camisa para promover saudáveis debates nas tardes do “Sem Censura”, da estatal TV Brasil, outras emissoras prestam-se à explorar tragédias humanas, promover esmolas para “astros” que não compreenderam a efemeridade do sucesso e um sem fim de comerciais de produtos obsoletos e feitos sob medida para os ingênuos “pobrezinhos” e “endividados”, que não tem como “comprovar renda” ou não passam pelo pente-fino das consultas de crédito tão comuns no mercado e que são isentas nessas “negociatas” oferecidas pelas emissoras. Além do abismo cultural que os separa, a diferença é que o programa da Leda, lamentavelmente, dá traço no ibope e o vulgarismo da concorrência chega a liderar na audiência.


Não investimos, ou investimos pifiamente, nos esportes e, principalmente, na captação e formação de nossos atletas. Quando os principais meios de comunicação do mundo transmitem ao vivo nossas mazelas, nosso despreparo e, por puro contra-senso, o fracasso de nossa arrogância, sentimo-nos ridicularizados e, sobretudo, credores de um investimento que não fizemos e não fazemos. No fim, em papos de boteco, decidimos que o melhor a se fazer é demitir o técnico, transformando-o em parabólica de nossas frustrações e incredulidades. Aos atletas que conquistam o topo de suas categorias, resta o mar de lágrimas e a narrativa, sempre assustadora, das inúmeras “pedras” suplantadas através do percurso.


Não produzimos filmes cativantes, com roteiros interessantes e imagens de qualidade. Mesmo assim, vivemos sôfregos com a falta de investimentos na indústria cinematográfica nacional e com a ausência de público nas sessões com películas brasileiras. E não é recente o fenômeno da falência das salas de cinema e sua transformação em templos religiosos. Enquanto o mundo se dedicava à uma sólida e constante construção de cultura cinematográfica, inclusive por contextos ideológicos e políticos, o Brasil afundava o Cinema Nacional em enfadonhas pornochanchadas, que, ao contrário do que alguns “notáveis” dizem, não tem nenhum valor estético ou formal. Eis que, diante de meio século com raríssimas produções de qualidade, o cinema brasileiro não representa qualquer importância em termos culturais para qualquer governo e para o povo.


Esses são só alguns exemplos de nossa hipocrisia e de como somos protagonistas, plenos partícipes de nosso degredo. Muitas vezes sem escolhas, destaque-se bem, já que somos obrigados a exercer o direito ao voto, mesmo que não existam bons candidatos ou que nenhum deles nos agrade, seja ideologicamente, seja com um “agradinho” no bolso. Seguimos assim, sofrendo e sambando, campeões mundiais em esperança e analfabetismo, desfilando corpos esculturais e mentes cada vez mais vazias. Somos, na melhor acepção de Toquinho e Vinícius de Moraes, “a tonga da mironga do kabuletê”.


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