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Fábrica de semicondutores: teremos uma no Brasil?

Especulações sobre a instalação de uma fábrica de semicondutores no Brasil levantaram uma série de dúvidas e criaram expectativas em diversos setores brasileiros Leia mais

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F3L1P40

em 11/10/2008 11:39:39

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Semic Factory

Especulações sobre a instalação de uma fábrica de semicondutores no Brasil levantaram uma série de dúvidas e criaram expectativas em diversos setores brasileiros. Para saber o que realmente pensam os envolvidos com o assunto, conversamos com representantes de algumas empresas que já atuam no Brasil, e com o coordenador geral de Microeletrônica do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Henrique de Oliveira Miguel. Há muito otimismo em todos, isso é bom. Mas muitas coisas ainda precisam ser feitas, e esse é um trabalho que depende de muitos.

De acordo com Henrique de Oliveira, as discussões em torno dos incentivos à implantação de um novo pólo de microeletrônica no Brasil continuam no governo.“Tudo está sendo conduzido pela Casa Civil. Nosso objetivo é fomentar investimentos”, diz. Para ele, esse é um passo importante para o país e está vinculado ao programa de TV Digital. “Vejo apenas aspectos positivos”, completa.

Atualmente, o Brasil tem apresentado um crescimento significativo das importações na área justamente porque os novos produtos têm muito dos semicondutores. “É preciso transformar o país”, diz Henrique.“Também temos políticas para outros setores. Temos que fazer disso uma forma de industrialização do país com um todo, torná-lo competitivo não só do ponto de vista eletrônico”, enfatiza. É importante lembrar ainda que o desenvolvimento do setor estimulará outras áreas além da produção, como serviços e softwares.

Ao acelerar a introdução de novos benefícios ao setor, as empresas também terão retornos ágeis, desenvolverão mais rápido seus produtos e estarão, com certeza, na frente de seus “concorrentes”.

Henrique alerta: “É preciso pensar em fomento, competitividade e incentivo à Pesquisa e Desenvolvimento. É certo que não vamos fazer tudo aqui, mas teremos uma tecnologia melhor, mais atualizada e moderna”

Outro ponto muito importante ressaltado pelo coordenador é o fato de que apenas a ajuda do Governo Federal não será suficiente para a instalação de uma nova fábrica ou um complexo.“Somos apenas umas das esferas que precisam colaborar“, explica. “Não estamos nos empenhando apenas para a instalação de uma indústria e sim de um complexo industrial”.

A consolidação de um novo complexo industrial, segundo Henrique, vai melhorar a cadeia produtiva, diminuir o déficit da balança, ampliar a atuação das empresas brasileiras – tanto no mercado interno quanto no externo, e impulsionar diversos setores.

Segundo ele, a instalação de um novo complexo exige determinadas condições como uma logística adequada, que facilite o acesso; diversos tipos de serviços; ‘facilidades’ de exportação e importação; entre outros. “O Estado que enxergar ou que já tenha se preparado e implementado estas condições, está à frente dos outros, tem maior probabilidade de ser escolhido”, conta Henrique. Na maioria das vezes, os Estados oferecem as condições mínimas e não todas.

“A implementação de um complexo como este deve levar cerca de 10 a 15 anos para estar completa, queremos montar um ecossistema e para isso também temos que treinar recursos humanos”, ressalta.

Estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, de acordo com o coordenador têm demonstrado grande interesse em atrair ao menos uma fábrica de semicondutores. “Temos discutido diversas medidas e conversado com várias empresas, mas só vamos partir para uma medida formal quando tivermos algo mais efetivo para falar”, ressalta.

Para ele, este não é um assunto que depende apenas da Medida Provisória. “Temos que pensar ainda em questões como segurança, melhoria dos portos e outros que ainda precisam ser resolvidos.

Porém, temos certeza de que, anunciando as medidas de forma clara, as empresas voltam a nos procurar, afinal, somos um mercado estratégico, principalmente na América Latina”. O interesse das empresas, segundo ele, é evidente porque elas conhecem os verdadeiros potenciais do país, que hoje oferece um panorama consistente e um mercado com tendência ao crescimento.

Para o coordenador, dificuldades com formação (ciência e tecnologia) podem ser solucionadas com mais facilidade. “Temos excelentes profissionais aqui e no exterior, além de uma forte comunidade acadêmica”, enfatiza. Quantos aos custos para incentivo ao novo complexo, Henrique confirma que é elevado, mas ressalta que a tendência mundial de penetração dos semicondutores também é muito grande. “Se não fizermos isso agora, vamos ficar pra trás”, conclui.

Para o presidente da Intel no Brasil, Oscar Clarke, as discussões do governo que visam a eliminação de tributos para a indústria de semicondutores são muito positivas.”Acreditamos que o governo tenha as informações necessárias para definir um pacote de incentivos que posicione o Brasil de maneira competitiva no mapa de investimentos desse setor. Por outro lado, é notória a existência de outros fatores que influenciam o aumento de competitividade e ajudam a tornar o país mais atrativo, como a capacitação de mão-de-obra especializada e infra-estrutura para exportação e importação. O importante é que estamos no caminho certo e, com certeza, a medida provisória para desoneração de tributos não passará despercebida pela indústria”.

A NXP, antiga divisão de semicondutores da Philips, não demonstra interesse em estabelecer uma fábrica no Brasil em médio prazo. O assunto não é prioridade na empresa hoje. “A instalação de uma fábrica no país vai demandar outros diversos serviços e também uma mão-de-obra bastante especializada. Temos que nos atentar a isso”, diz o gerente geral da NXP para a América do Sul, Carlos Paschoal. A empresa, segundo ele, tem esta preocupação e, por isso, treina atualmente alguns de seus funcionários fora do país.

De acordo com Armando Gomes, diretor do Design Center da Freescale do Brasil, “no momento, a Freescale não tem planos de construir uma fábrica no Brasil”. Segundo ele, há nove anos, a empresa tem investido pesadamente num centro de projeto de circuitos integrados, baseado em Jaguariúna, São Paulo. Lá, trabalham cerca de 150 engenheiros e pesquisadores, que desenvolvem projetos mundiais em tecnologia.“Este é um centro que conseguiu estabelecer uma excelente reputação dentro da empresa, recebendo a responsabilidade de desenvolver muitos projetos críticos para sua estratégia”.

Em 2007, a empresa planeja ampliar a base de colaboradores com a contratação de mais 40 ou 50 projetistas. “Acreditamos que a criação de produtos é, no final, o que diferencia uma empresa da outra. A concorrência entre países para atrair centros de projeto é tão acirrada quanto para atrair fábricas, e já temos isto aqui no Brasil”, explica. De acordo com o diretor da Freescale, muitas pessoas não sabem que, no Brasil, se faz projetos de chips para celulares, injeção eletrônica, rádios, PCs, TVs, CD players, e outros. “Esses projetos são desenvolvidos para participarmos de concorrências mundiais, sendo vendidos praticamente em todo o mundo.Todos “designed in Brazil”, bem verde e amarelo”, diz. A questão da agilidade alfandegária e de facilidades de importação de equipamentos é primordial, segundo ele, já que é a indústria que atende o mercado sob o ponto de vista estritamente global (importação de materiais e equipamentos, exportação de produtos acabados) e não existem fabricantes locais de equipamento e matéria-prima. Mão-de-obra qualificada, nível de taxação, custo de energia, questões ambientais e incentivos são também fundamentais.

Entre os fatores positivos que acompanhariam a instalação de uma fábrica de semicondutores no país, Gomes destaca:“Isso ajudaria na balança comercial, seja substituindo, seja devido à exportação inevitável, já que esta é uma indústria verdadeiramente global. Exportar dez chips equivale a substituir a importação de outros dez. Atração de investimentos e geração de empregos são fatores sempre positivos”, finaliza.

“É difícil estimar quando poderemos ter uma fábrica de semicondutores no Brasil, pois isso depende de todo um “ecossistema”, que se faz necessário ao redor de um empreendimento deste porte, e que vai desde a mão de obra especializada, até as facilidades logísticas para escoamento de matéria prima e produto final”, diz o gerente geral da STMicroelectronics no Brasil e na América do Sul,

Entre os fatores que influenciariam positivamente na concretização desta idéia Tortorella destaca uma reforma fiscal e investimentos em infra-estrutura por parte do Governo. “Por outro lado, a indústria também precisa começar a desenvolver seus próprios produtos”. Segundo ele, atualmente, a produção local é incentivada, porém o nível de desenvolvimento local ainda é muito baixo para gerar uma massa crítica que atraia centros de desenvolvimento de CI’s e, como conseqüência, fábricas no setor. “Veja exemplos como Taiwan e China”.

Uma das maiores dificuldades é o custo de mão-de-obra não competitiva por causa dos encargos sociais e do Dólar fortalecido.“Com uma nova fábrica, com certeza teríamos fatores positivos e negativos, uma vez que trata-se de uma indústria química também e, se não for devidamente gerenciada, pode trazer efeitos para o meio ambiente. Estes fatores têm que ser cuidadosamente estudados levando-se em conta as prioridades do país em outros setores”, conclui.

Para o diretor comercial da Texas Instruments para a América do Sul, Antonio Motta, é muito difícil prever quando uma empresa mundial de semicondutores fará algum aporte de investimento no Brasil para a construção de uma fábrica.“Essa é uma questão de planejamento estratégico de cada empresa”. Além da oferta de incentivos fiscais imprescindíveis a esse tipo de investimento, segundo o diretor, é necessário que o país promova reformas estruturais na área de importação e exportação; eliminando a burocracia existente e tornando mais ágeis esses canais; na infra-estrutura de portos e aeroportos em geral; na simplificação da cadeia tributária e na disponibilização de mão-de-obra especializada: técnicos e engenheiros de alto nível com especialização em microeletrônica.“Tais condições são essenciais para que uma empresa pense em se instalar no país”, enfatiza.

Para Motta, o Brasil tem o atrativo de um “razoável” mercado interno onde todos os grandes fabricantes mundiais de equipamentos eletrônicos e também montadores mundiais de placas terem fábrica no Brasil. “O mercado de TV digital virá, sem dúvida, somar interesse nesse sentido”, diz.

Segundo ele, o Brasil possui excelentes universidades, bastando apenas criar novos cursos voltados à microeletrônica; além de boa localização geográfica, que é interessante no sentido de tornar o Brasil um pólo natural de fabricação e exportação para outros países da América Latina.

“Neste momento, não há planos da Texas Instruments de se estabelecer no Brasil com uma operação de manufatura. Entretanto, essa possibilidade é sempre avaliada no planejamento estratégico da empresa, mas a longo prazo”, adianta.

Para ele, a instalação de uma fábrica de chips “seria, sem dúvida, um avanço tecnológico muito grande para o país e proporcionaria receita de exportação (conseqüentemente melhorando a balança de pagamentos), promoveria a formação e treinamento de técnicos especializados em fabricação de semicondutores e incentivaria a vinda de outras empresas participantes da cadeia produtiva de semicondutores a também se instalarem no país”.

Fonte: Saber Eletrônica Online por Viviane Bulbow

Artigo originalmente publicado na revista Saber Eletrônica - Ano 42 - Número 409 Fevereiro 2007


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